quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

The coffe shop in Paris

Capítulo I


A jovem loira mantinha-se impaciente e nervosa, vestida numa gabardina rosa da Burberry, comprada no Harrods antes de rebentar a Guerra. A gabardina leve e distinta escondia subtilmente a mortífera agente que esta era. Para se manter ocupada estava a recitar no seu pensamento, por ordem de preferência, todos os venenos não detectáveis pós-mortem, inodoros e incolores. Um exercício fútil, mas que a mantinha distraída: ..."thallio, cianeto, belladona..."
Os seus pensamentos foram interrompidas por um tímido "pssst". A jovem já tinha sentido alguém a aproximar-se, mas sabia que seria alguém que vinha ter com ela, porque o bilhete que segurava no bolso, já húmido do suor das mãos, dizia simplesmente: "fomos felizes Paris mon amour".

-Olá Carol...podes sair das sombras... o teu perfume de lilás denuncia-te a quilómetros, disse a jovem de gabardina, com um sorriso.

-Olá miúda ... ainda usas esse farrapo velho que compramos nas férias?, responde a Ana Carolina com uma expressão de felicidade ao ver a amiga a virar-se para ela e a abrir os braços para um reencontro entre as duas.

-Ainda o uso e fica-me sempre bem, respondeu a jovem loira, ... lembraste dessas férias?

-Sim, como se fossem ontem...estouramos o plafond dos cartões de créditos dos nossos pais... foi uma chatice regressar de camioneta pelo Canal da Mancha, que já nem existe.
-Lembras-te do passeio no Tamisa, Matilde? Quase que éramos expulsas do barco e tínhamos de vir a nado.

-Oh, só arranjas confusões, Carol, sempre pronta para arranjar problemas.

-Tudo por uma boa gargalhada, já era o nosso lema.

As amigas estavam abraçadas e olharam à volta...Paris já não era a mesma desde os ataques... e a torre Eiffel era apenas um monte de metal retorcido, numa imagem do novo mundo que as rodeava...destruído e fumegante, que enevoava o ar e o tornava pesado ao respirar.

Nos escombros do outrora Arco do Triunfo estavam os estilhaços das bombas e tudo era cinzento e sombrio...

A única coisa de pé era a pequena coffe shop, ainda azul e amarela, ainda límpida e serena... na esplanada estava um homem loiro, de gabardine escura e com um ramo de rosas na mão.

-Está ali ele, diz Matilde, com um sorriso maroto.
-Eu sei...e de rosas na mão...sempre o mesmo romântico, diz a Ana Carolina, a encolher os ombros e a sorrir.

Dirigem-se as duas pela rua suja, abraçadas e a sorrir. Ana Carolina apertava o seu bilhete no bolso do seu sobretudo..."fomos felizes Paris mon amour" repetia para si...

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