quarta-feira, 18 de março de 2015

Francesinha ou o calor do vermelho






   A luz de halogéneo piscava de quando em vez, e criava sombras cada vez mais esguias nas paredes.
   O detective Mendes, cansado, abriu mais o colarinho e esticou o já solto nó da grava azul clara (com manchas de gordura e mostarda), e gritou, ecoando pelas paredes com mofo:
   - Mas afinal, vais cantar ou não? Já estou farto desta merda, pá!
   Sentou-se, pesado e com algum esforço na cadeira de metal, escamada e ferrugenta, e inclinou-se para cima da secretária antiga, a olhar para o outro ocupante deste gabinete bolorento do calabouço da Policia Judiciária. Do outro lado da mesa fitava-o, com um olhar mortiço (pelo menos parecia mortiço, já que os olhos mal se viam pela maquilhagem escura), um jovem que parecia já ter tido melhores dias.
   Com algum esforço, ergueu-se e colocou os cotovelos na mesa, a olhar directamente para o detective Mendes, aproveitando para afastar uns cabelos da frente dos olhos, mesmo com as algemas nos pulsos:
   -Não percebes, pois não? És mais um carneirinho que pensa que é gente. Não tenho mais nada para te di...
   A frase foi interrompida por um estalo com força suficiente para deitar o rapaz ao chão, caindo da cadeira, e jorrando algumas gotas de sangue na parede beje do gabinete, que se vão juntar às outras que já la estariam, secas e acastanhadas, fruto de outros estalos noutros desgraçados.
   - Estás a cansar-me, pá!, gritou o detective: - e eu gosto pouco de me cansar, ò boi, por isso explicas-te rápido ou não sais daqui a caminhar.
   Num rompante dirigiu-se ao rapaz, e com uma força anormal para um homem de estatura média e fora de forma, levantou-o e num movimento ríspido colocou-o na cadeira:
  - Olha para as fotos, Filipe, olha para este banho de sangue, e diz-me quem fez isto... tu sabes que eu sei que tu sabes!
   Filipe limpou o sangue dos lábios e com um sorriso desafiante, sem olhar para as fotos, impressas numas folhas A4, onde alguns cadáveres, femininos e masculinos, prostrados em poças de sangue, ocupavam o tampo da mesa
   Esticou a t-shirt com o símbolo da casa Stark, do Game of Thrones, e continuou a sorrir.
   -Eu sei que estiveste aqui, disse o detective, apontando para as fotos: - e sabes porque, meu camelo? porque o anel de casamento que falta no dedo deste desgraçado deste jardineiro da Câmara do Porto estava no teu bolso quando te fomos buscar à baixa, meu otário, por isso, vais-me contar quem fez isto, porquê, e que raio se passa na minha cidade, nem que te tenha de arrancar as orelhas!
   -Não sabes nada, pois não? disse, com desdém, Filipe: - A noite do Porto está a ferro e fogo e vocês nem sabem o que se passa...
   -Sabemos que anda a morrer gente, e que tu e a tua cambada de cybergóticos estão envolvidos, respondeu o Mendes, agastado: - Vou é meter-vos todos na cadeia se não cantas, palhaço.

   -Nem imaginas o medo que tenho... ah!, disse Filipe a levantar-se: - e agora que sei que também não sabes nada, acho que me vou embora.
   Filipe, num movimento súbito, e com uma velocidade inumana, parte as algemas que prendiam os seus pulsos como se fossem de papel, e agarra o detective Mendes, por trás, na cadeira, empunhando um punhal com símbolos nórdicos junto ao pescoço deste, sussurra-lhe ao ouvido:
   -Carneirinho, sabes porque que o prato favorito desta bela cidade do Porto é uma vermelha, fumegante, picante e pujante Francesinha? Ah, ironia, simples ironia, gostarem tanto de algo espesso e vibrante que vos comanda sem saberem...

1 comentário:

von brigoi disse...

vejo que a escrita tem tido varias direcçoes , vim apenas matar curiosidade.