quarta-feira, 4 de junho de 2008

A Noite - Parte I

Continuei pelo passeio sujo, desviando-me das cascas de laranja que tornavam o chão uma armadilha. O ar estava carregado, o que me fazia sentir cansado e sem forças. Meti a mão ao bolso para ver o meu dinheiro. Tirei umas notas amarrotadas...10, 15, 35, 60 euros. "Já dá para a noite", pensei. Dirigi-me na noite escura para a zona histórica. Sabia que ia estar carregada de turistas e de estudantes bêbados. "Pode ser que dê uma", murmurei entre um sorriso nos lábios..."até me fazia bem".
Os candeeiros da rua iam alternando a minha sombra. Esta crescia e diminuía conforme avança para o meu objectivo. Ia-me fazendo companhia e distraia-me enquanto não chegava. O meu bafo fazia vapor e estava a ficar com o nariz molhado do frio.
Distraí-me com umas prostitutas que conversavam no outro passeio e tropecei num buraco feito pela chuva e pelo uso da calçada. "Porra pra esta merda, pá", berrei, enquanto me equilibrava num salto e me encostava à parede.
As putas riram-se ao me verem quase cair.
Parei e verifiquei se não tinha dado cabo dos sapatos. Eram do meu pai e foram das poucas coisas de jeito que me deixou ao fugir. Isso e dividas. Bem... e um meio-irmão mulato. Os sapatos salvaram-se e não sujaram o lustro que tanto custou a puxar.
Elas riram-se e perguntaram com cara de gozo se estava bem: "Tás bem, môre? Queres uns miminhos? Anda cá à Locas que ela põe-te nos trinques" disse a mais gorda, com a barriga que parecia querer fugir para respirar entre uns calções apertados demais e um top tão curto que quase se viam as mamas em baixo e por cima também.
"Deixa o moço que ele vai ver se tem pito de graça...olha pra ele tão bonitinho", disse a loira desdentada com umas raízes pretas que parecia que lhe tinha ardido o cabelo debaixo para cima, como num incendio florestal.
"Obrigado, moças, mas estou bem", disse atrapalhado. Lá segui o caminho certo que não me tinha sujado. Esta roupa tinha-me custado bem caro. Tive de descarregar a casa de um tipo e montar uma porrada de armários na casa nova. Foi o Pipo que me arranjou o biscate. Mas acho que o cabrão recebeu mais do que as 150 mocas que dividiu comigo. Cabrão. Se estiver ai na noite vou já dizer-lhe das boas.

3 comentários:

Paula disse...

Escreve muito bem!
Parabéns!
Lindo blog.

Abraço

Anónimo disse...

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esperamos pela sua presença e que goste do espaço criado:)

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cumprimentos
a administração

Trek disse...

Para quando a Parte 2?